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sexta-feira, abril 10, 2026

Mais de 1,7 mil trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em Goiás em cinco anos

Entre 2021 e 2025, pelo menos 1.727 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão em Goiás, segundo dados das fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Os números revelam que a prática segue presente no estado, especialmente no meio rural, apesar dos avanços institucionais no combate ao crime.

O ano de 2023 se destaca de forma expressiva nesse período, com 753 resgates, quase metade do total registrado em cinco anos. O volume elevado está diretamente ligado a grandes operações de fiscalização concentradas no setor sucroenergético, responsável por 438 resgates apenas naquele ano. A atividade da cana-de-açúcar, frequentemente associada à modernização do campo, concentrou casos de jornadas exaustivas e condições degradantes de trabalho.

Os dados anuais mostram oscilações: em 2021 foram 304 resgates; em 2022, 273; em 2024, 155; e, em 2025, até o fechamento parcial do levantamento, 242 trabalhadores haviam sido libertados. Para os auditores, essas variações não indicam necessariamente aumento ou redução da prática, mas refletem o perfil das operações realizadas.

Segundo o auditor fiscal do trabalho Roberto Mendes, que atua há quase duas décadas no combate ao trabalho escravo em Goiás, ações em determinados setores podem resgatar dezenas ou até centenas de pessoas de uma só vez. Um exemplo foi uma operação no município de Vila Boa, onde 108 trabalhadores ligados ao corte de cana foram libertados em uma única fiscalização.

Apesar de casos também ocorrerem em áreas urbanas, o campo segue como o principal cenário da escravidão contemporânea. Estimativas indicam que cerca de 80% dos resgates no Brasil acontecem na zona rural, realidade que se repete em Goiás. Trabalhadores, em sua maioria migrantes, são aliciados com promessas de bons salários e acabam submetidos a alojamentos precários, falta de água potável, ausência de instalações sanitárias e esforço físico extremo.

A legislação brasileira reconhece quatro formas de trabalho escravo contemporâneo: trabalho forçado, servidão por dívida, jornada exaustiva e condições degradantes. Em Goiás, as duas últimas são as mais frequentes. “Não se trata de qualquer irregularidade trabalhista, mas de um crime que viola direitos fundamentais”, ressalta o procurador do Trabalho Tiago Cabral.

Grande parte das fiscalizações tem origem em denúncias, principalmente pelo Disque 100. Embora apenas uma pequena parcela das denúncias resulte na caracterização do crime, o aumento desses registros é visto como sinal de maior conscientização dos trabalhadores e da sociedade.

Outro fator apontado pelos órgãos de controle é o impacto da terceirização irrestrita, ampliada após a reforma trabalhista de 2017, que facilitou a atuação de intermediadores de mão de obra e contribuiu para a precarização das condições de trabalho.

Na maioria das operações, os casos são resolvidos de forma administrativa, com pagamento imediato de salários atrasados, indenizações e custeio do retorno dos trabalhadores às suas cidades de origem. Ainda assim, os empregadores são autuados e podem ser incluídos na chamada “lista suja” do trabalho escravo.

Para o Ministério Público do Trabalho, a redução dos números após o pico de 2023 não significa que o problema esteja resolvido. “A fiscalização funciona, mas não autoriza acomodação”, afirma Tiago Cabral. Os dados, segundo ele, mostram que a escravidão contemporânea segue como uma realidade persistente, ligada a modelos produtivos que ainda lucram com a violação extrema de direitos.

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