O Brasil passou a operar em um novo regime estrutural de consumo de energia elétrica. Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que a demanda máxima horária do Sistema Interligado Nacional (SIN) deixou o antigo intervalo entre 80 mil e 90 mil megawatts (MW) e passou, desde meados de 2023, a girar em torno de 100 mil MW — com pico superior a 105 mil MW em 2025.
Em 2021, a carga máxima era de cerca de 82 mil MW. O avanço acumulado em quatro anos se aproxima de 28% a 30%, sinalizando uma mudança estrutural no padrão de consumo.
Até 2022, os picos anuais permaneciam majoritariamente abaixo de 88 mil MW. O salto registrado a partir de 2023 estabeleceu um novo piso operacional. Desde então, mesmo os períodos de redução partem de um patamar mais elevado do que o observado anteriormente.
O recorde acima de 105 mil MW foi registrado como média ao longo de uma hora, o que indica que, em momentos instantâneos, a carga pode ter sido ainda maior.
Pressão sobre geração e redes
Quanto mais alta a demanda de ponta, maior a pressão sobre redes de transmissão, subestações e usinas despacháveis — aquelas que podem ser acionadas conforme a necessidade do sistema, como as termoelétricas.
Especialistas apontam que o aumento não é apenas sazonal. Ondas de calor frequentes têm ampliado o uso simultâneo de ar-condicionado nos setores residencial e comercial. Cada verão recente tem estabelecido novos recordes de carga.
Mas o crescimento também é impulsionado por fatores estruturais, como:
- Expansão de data centers
- Maior digitalização da economia
- Crescimento do consumo elétrico em serviços e indústria
Clima adiciona incerteza
O cenário climático adiciona uma variável estratégica. O país vive atualmente um episódio de La Niña, que costuma favorecer chuvas no Sul e em parte da Amazônia.
No entanto, modelos internacionais indicam probabilidade crescente de neutralidade climática com possível transição para El Niño no segundo semestre.
Historicamente, o El Niño está associado à redução de chuvas no Norte e Nordeste e maior irregularidade hídrica no Sudeste e Centro-Oeste — regiões que concentram grande parte dos reservatórios hidrelétricos do país.
Lembrança da crise de 2021
O episódio mais recente de estresse hídrico ocorreu entre setembro de 2021 e abril de 2022, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) acionou a bandeira vermelha de escassez hídrica, criada durante a pior crise de chuvas em mais de 90 anos.
Naquele período, a cobrança adicional de R$ 14,20 a cada 100 kWh consumidos elevou as contas de luz e pressionou a inflação, em meio ao uso intenso de termoelétricas.
O contexto climático também era atípico: entre 2020 e 2023, o planeta enfrentou um raro fenômeno conhecido como La Niña “Triple Dip”, com três anos consecutivos sob influência do evento.
Novo desafio estrutural
Com consumo em patamar mais elevado e maior dependência de geração complementar em períodos críticos, o sistema elétrico brasileiro passa a operar sob nova dinâmica. A combinação entre crescimento estrutural da demanda e variáveis climáticas coloca a segurança energética no centro das atenções para os próximos anos



