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sexta-feira, abril 10, 2026

Câncer no Brasil escancara desigualdades e expõe diagnóstico tardio nas regiões mais pobres

O Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo a nova estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). Mais do que revelar o avanço da doença, o levantamento traça um retrato de um país dividido: enquanto parte da população convive com cânceres associados ao envelhecimento e ao estilo de vida urbano, outra ainda enfrenta tumores amplamente preveníveis, diagnosticados tardiamente e concentrados nas regiões mais vulneráveis.

De acordo com o Inca, o câncer já se consolidou como um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e pode, em um futuro próximo, tornar-se a principal causa de morte no país, superando doenças cardiovasculares. Durante a apresentação dos dados, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reconheceu a urgência de ampliar políticas públicas voltadas tanto à prevenção quanto ao diagnóstico precoce.

Um país, dois padrões de câncer

Os dados da Estimativa 2026 mostram que o perfil da doença varia significativamente entre as regiões, refletindo desigualdades no acesso à saúde, às ações preventivas e às condições de vida.

No Norte e no Nordeste, persistem tumores historicamente associados a falhas estruturais. O câncer do colo do útero segue como a segunda neoplasia mais incidente entre as mulheres, apesar de ser amplamente prevenível por meio da vacinação contra o HPV e do rastreamento adequado. O câncer de estômago também aparece entre os mais frequentes entre os homens, cenário relacionado a fatores socioeconômicos, infecções e diagnóstico tardio.

No Sul e no Sudeste, predominam cânceres ligados ao envelhecimento populacional e ao estilo de vida urbano, como os de mama, próstata, cólon e reto, padrão semelhante ao observado em países de alta renda. Ainda assim, o avanço do câncer colorretal preocupa especialistas, especialmente pela ausência de um programa nacional estruturado de rastreamento.

As diferenças regionais se refletem nas taxas de incidência. No caso do câncer de mama, por exemplo, o Norte registra cerca de 33 casos por 100 mil mulheres, enquanto o Sudeste chega a 88 e o Sul a 77. Para o oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas, essas variações são multifatoriais e envolvem desde padrões de diagnóstico até diferenças socioeconômicas e genéticas.

Mama lidera, mas colo do útero segue como alerta

Entre as mulheres, o câncer de mama permanece como o mais incidente no país, com cerca de 80 mil novos casos por ano. Já o câncer do colo do útero segue como um grave alerta: mesmo sendo evitável, ainda provoca quase 20 mil novos casos anuais e mais de 7 mil mortes por ano, especialmente em regiões mais pobres.

Segundo especialistas, o dado é alarmante em um país que dispõe de vacina contra o HPV pelo SUS. “Trata-se de uma doença que praticamente desapareceu em vários países, mas que ainda mata milhares de brasileiras”, avaliam oncologistas ouvidos pela reportagem.

Intestino cresce e pulmão ainda lidera mortes

Outro destaque da estimativa é o crescimento do câncer de cólon e reto, hoje entre os mais incidentes em homens e mulheres. Especialistas associam o avanço a hábitos pouco saudáveis, como sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados, além do diagnóstico tardio.

Apesar de não ser o mais frequente, o câncer de pulmão segue como o que mais mata no Brasil, segundo dados de mortalidade de 2023. Mesmo com queda gradual, continua altamente letal, assim como o câncer de intestino, muitas vezes descoberto em fases avançadas.

Desigualdade social aumenta risco de morte

Para especialistas, o crescimento do câncer no país resulta da combinação entre envelhecimento populacional e aumento de fatores de risco, como obesidade, tabagismo, consumo de álcool e baixa cobertura vacinal. A desigualdade social agrava o cenário: populações mais pobres recebem diagnósticos tardios e têm mortalidade até duas ou três vezes maior do que em países desenvolvidos.

A nova estimativa do Inca reforça um retrato já conhecido, mas cada vez mais urgente: no Brasil, o câncer avança de forma desigual, e a distância entre prevenção eficaz e diagnóstico tardio segue determinando quem adoece — e quem morre.

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