O crescimento do chamado movimento “therian” nas redes sociais tem despertado curiosidade e preocupação entre pais, educadores e profissionais de saúde mental. A tendência, popularizada principalmente em plataformas como o TikTok, reúne jovens que se identificam simbolicamente com animais e expressam essa conexão por meio de fantasias, gestos e encontros em grupo.
Em entrevista ao jornal argentino La Nación, o psicanalista e psiquiatra infantojuvenil Francisco Guerrini explicou que o fenômeno precisa ser analisado para além da aparência lúdica.
Segundo o especialista, muitos casos estão ligados a processos emocionais complexos vividos durante a adolescência, fase marcada pela construção da identidade e pela necessidade de pertencimento social.
“A primeira coisa que se deve pensar é se há sofrimento”, afirmou.
Busca por identidade e diferenciação geracional
Guerrini destaca que movimentos como esse não surgem isoladamente, mas fazem parte de dinâmicas geracionais. Assim como outras “tribos urbanas” do passado, os therians representam uma tentativa de diferenciação simbólica entre jovens.
Na adolescência, explica o médico, é comum que conflitos internos sejam expressos de maneira intensa ou performática. A identificação com animais pode funcionar como linguagem emocional para sentimentos difíceis de elaborar.
O papel da família e das referências adultas
O especialista ressalta que a análise clínica desses casos passa, прежде de tudo, pelo contexto familiar. Ele aponta que a ausência de referências sólidas pode levar adolescentes a buscar modelos de identificação fora de casa — em amigos, influenciadores ou personagens virtuais.
Quando esse vazio de pertencimento não é acolhido, comportamentos simbólicos podem se intensificar como forma de expressão psíquica.
Quando deixa de ser brincadeira
Embora exista uma dimensão lúdica, Guerrini alerta para sinais de que a situação pode exigir atenção profissional. Atitudes como agressividade, perda de noção de limites ou sofrimento evidente do jovem e da família indicam que não se trata apenas de uma encenação.
Nesses casos, o comportamento pode estar associado a quadros emocionais mais graves e precisa ser acompanhado.
Redes sociais e impacto no desenvolvimento
Outro ponto destacado é o uso excessivo das redes sociais. Para o psiquiatra, a hiperexposição digital pode afetar a capacidade de concentração, reflexão crítica e elaboração emocional, especialmente em cérebros ainda em desenvolvimento.
Ele defende que o desafio atual não é apenas compreender o fenômeno cultural, mas oferecer escuta e apoio aos adolescentes que encontram nesses grupos uma forma de expressar angústias.
Debate vai além da tendência
O crescimento global do movimento mostra que o tema ultrapassa a esfera das “modas da internet” e levanta discussões sobre saúde mental, vínculos familiares e o papel das plataformas digitais na formação subjetiva dos jovens.
Para especialistas, o caminho não é a repressão ou o julgamento, mas a observação atenta: entender o que cada comportamento comunica e garantir que adolescentes tenham espaços seguros de diálogo e acolhimento.
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